Sáb. Jan 24th, 2026

    Maputo, Moçambique – Dois dias após o início das inscrições para o curso básico da Polícia da República de Moçambique (PRM), os postos de inscrição e os serviços de emissão de documentos transformaram-se em cenários de uma verdadeira corrida contra o relógio. Centenas de jovens aglomeram-se diariamente, formando filas intermináveis, na esperança de garantir uma das quatro mil vagas disponíveis na corporação. A cena repete-se desde segunda-feira, convertendo-se num dos fenómenos sociais mais visíveis do momento na capital moçambicana.

    A equipa da Miramar percorreu vários centros de recrutamento e testemunhou a diversidade de perfis que convergem para estes locais. Entre os candidaLtos, encontram-se repetentes, estreantes e até jovens dispostos a interromper cursos superiores para seguir a carreira policial. Esta disparidade de histórias une-se num objetivo comum: vestir a farda da PRM.

    Diferentes Perfis, Mesma Ambição

    Olga José, uma das concorrentes entrevistadas pela nossa equipa, mostrou-se confiante após completar o processo de inscrição. “O processo correu bem e agora resta aguardar pelas próximas fases. Estou optimista e acredito que conquistarei uma vaga”, declarou, ecoando a determinação que se observa na maioria dos candidatos.

    Um caso particularmente revelador da atractividade das vagas é o de Edna, estudante do segundo ano do curso de Direito. A jovem confirmou estar disposta a pausar os estudos universitários para envergar pela carreira policial, uma decisão que ilustra o valor que muitos jovens atribuem a uma posição na PRM.

    Do outro lado do espectro está Argésio Sumburane, que tenta pela segunda vez ingressar na polícia. O candidato mantém intacta a motivação que já o movia anteriormente: “O meu desejo é defender a pátria e combater o terrorismo e os raptos”, afirmou, reflectindo um sentimento patriótico que parece partilhado por muitos dos concorrentes.

    Movimento Intenso e Filas Intermináveis

    O movimento nos centros de recrutamento é intenso e caótico. Centenas de jovens formam longas filas sob o sol, aguardando pacientemente (ou não) a sua vez de se inscrever. O mesmo cenário repete-se nos postos de emissão de registo criminal, onde a procura disparou nestes dias.

    A dimensão das filas é tal que se tornou o mais visível indicador do interesse massivo pelo curso básico. Os candidatos, conscientes da competitividade do processo, procuram chegar cedo e garantir que todos os requisitos são cumpridos dentro do prazo estabelecido.

    Consciência da Legalidade e Rejeição de Esquemas Ilícitos

    Num contexto onde a corrupção e os esquemas ilícitos têm sido problemas recorrentes em processos de recrutamento público, os candidatos entrevistados mostraram-se particularmente conscientes da importância de seguir os trâmites legais. Vários afirmaram rejeitar qualquer tentativa de burla ou pagamento ilegal para facilitar a sua entrada, preferindo confiar no seu mérito e preparação.

    Esta postura é particularmente relevante num país onde a transparência nos concursos públicos tem sido repetidamente questionada por organizações da sociedade civil e meios de comunicação social.

    Contexto Nacional e Atractividade da Carreira Policial

    A afluência massiva de candidatos à PRM ocorre num contexto nacional complexo. Por um lado, Moçambique continua a enfrentar desafios significativos de segurança, particularmente na província de Cabo Delgado, onde grupos insurgentes mantêm uma presença activa. Esta realidade pode explicar, em parte, o apelo patriótico e de serviço nacional que motiva candidatos como Argésio.

    Por outro lado, a taxa de desemprego juvenil em Moçambique mantém-se elevada, situando-se acima dos 20% para jovens entre os 15 e os 24 anos. Neste cenário, as quatro mil vagas oferecidas pela PRM representam uma oportunidade rara de emprego estável e com perspectivas de carreira, factor que certamente contribui para a adesão massiva.

    Próximos Passos e Expectativas

    As inscrições para o 44.º Curso Básico da Polícia decorrem até 30 de Setembro, dando ainda várias semanas de oportunidade para os candidatos completarem o processo. No entanto, a experiência de anos anteriores sugere que a afluência tenderá a aumentar à medida que o prazo final se aproxima, potencialmente criando ainda maiores congestionamentos nos postos de inscrição e serviços de apoio.

    Após o encerramento das inscrições, os candidatos passarão por um rigoroso processo de selecção que incluirá provas físicas, testes psicológicos e avaliações de conhecimentos gerais. Apenas os melhor classificados terão a oportunidade de integrar as quatro mil vagas disponíveis.

    Enquanto isso, as longas filas continuarão a ser o retrato visível das aspirações de milhares de moçambicanos que veem na carreira policial não apenas um emprego, mas uma oportunidade de servir o país e construir um futuro mais estável para si e suas famílias.

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